Ciencia

CBD e epilepsia refratária: o que diz a ciência revisada por pares?

Publicado em 28/07/2026 · Redação Ganja

Estudos clínicos de fase 3 demonstram que o canabidiol (CBD) purificado é eficaz na redução significativa da frequência de crises em epilepsias refratárias, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut. A ciência indica que o CBD atua em múltiplos alvos moleculares, como os receptores GPR55 e TRPV1. Embora não seja uma cura, o composto é uma opção terapêutica robusta sob prescrição médica quando tratamentos convencionais falham, conforme diretrizes da Anvisa.

O tratamento de epilepsias resistentes a medicamentos — chamadas de refratárias — passou por uma mudança de paradigma na última década. O que antes era baseado em relatos anedóticos de famílias em busca de alívio para crises convulsivas severas evoluiu para um corpo sólido de evidências científicas publicadas em periódicos de alto impacto, como o The New England Journal of Medicine (NEJM) e o The Lancet. No Brasil, essa evolução científica balizou as resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamentou a importação e a comercialização de produtos de Cannabis para fins medicinais, desde que atendam a critérios rigorosos de pureza e concentração.

O que os estudos de fase 3 revelam sobre as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut?

As evidências mais contundentes para o uso do CBD advêm de ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo. Um estudo referencial publicado no PubMed (Devinsky et al., 2017) avaliou o uso de CBD purificado em pacientes com síndrome de Dravet. Os resultados mostraram que a frequência média de crises convulsivas por mês caiu de 12,4 para 5,9 no grupo CBD, comparado a uma redução de 14,9 para 14,1 no grupo placebo.

Para a síndrome de Lennox-Gastaut, outro estudo de fase 3 (Thiele et al., 2018) demonstrou que doses de 10 mg/kg e 20 mg/kg de CBD foram significativamente superiores ao placebo na redução de crises de queda (drop attacks). Esses estudos foram fundamentais para que agências reguladoras internacionais e a Anvisa reconhecessem o potencial terapêutico do canabidiol em quadros onde os antiepilépticos comuns não surtiam efeito.

Como o CBD age no sistema nervoso para controlar crises?

Diferente do THC (tetra-hidrocanabinol), o CBD não possui efeitos psicotrópicos e não atua primariamente via receptores CB1 ou CB2 no cérebro. A ciência farmacológica contemporânea descreve que o CBD exerce sua ação anticonvulsivante através de múltiplos mecanismos não canabinoides.

Entre os principais mecanismos identificados na literatura científica (PubMed), destacam-se:

  • Antagonismo do receptor GPR55: O CBD bloqueia esses receptores acoplados à proteína G, o que modula a excitabilidade neuronal.
  • Dessensibilização de canais TRPV1: Atua nos canais de potencial de receptor transitório vaniloide tipo 1, envolvidos na regulação do cálcio intracelular.
  • Inibição da recaptação de adenosina: O aumento dos níveis de adenosina pode conferir neuroproteção e reduzir a hiperexcitabilidade nervosa.

Quais são as diretrizes da Anvisa para o acesso a esse tratamento?

No Brasil, a regulamentação do uso medicinal da Cannabis não deve ser confundida com a liberação do uso recreativo, que permanece proibido pela Lei 11.343/2006. O acesso ao CBD para epilepsia ocorre majoritariamente por duas vias regulamentadas pela Anvisa:

  1. RDC 327/2019: Estabelece os procedimentos para a concessão de Autorização Sanitária para a fabricação e comercialização de produtos de Cannabis para fins medicinais em farmácias brasileiras. Fonte: Anvisa.
  2. RDC 660/2022: Define os critérios para a importação excepcional por pessoa física, para uso próprio, mediante prescrição de profissional legalmente habilitado.

É imperativo que o produto tenha concentrações conhecidas de fitocanabinoides e esteja livre de contaminantes, garantindo a segurança do paciente pediátrico ou adulto.

Existem efeitos colaterais ou interações medicamentosas?

A ciência alerta que o CBD não é isento de riscos. Em ensaios clínicos, os efeitos adversos mais comuns incluíram sonolência, diminuição do apetite, diarreia e fadiga. Um ponto crítico para neurologistas é a interação medicamentosa: o CBD é metabolizado pelas enzimas do citocromo P450 (especialmente CYP2C19 e CYP3A4).

Quando administrado junto ao Clobazam, o CBD pode elevar significativamente os níveis plasmáticos do metabólito ativo deste sedativo, o que aumenta a eficácia contra crises, mas também amplia o risco de sedação severa. Além disso, o uso concomitante com o Valproato de Sódio exige monitoramento rigoroso das enzimas hepáticas, devido ao risco de elevação das transaminases (PubMed).

CBD é uma cura para a epilepsia?

É fundamental esclarecer que, até o momento, a ciência não classifica o CBD como uma cura. Ele é uma ferramenta de manejo de sintomas em quadros de epilepsia farmacorresistente. O objetivo do tratamento é a redução da carga de crises e a melhora da qualidade de vida global do paciente e de seus cuidadores. A interrupção abrupta de qualquer medicação antiepiléptica, incluindo o canabidiol, pode levar ao estado de mal epiléptico, uma emergência médica grave.

Portanto, qualquer protocolo terapêutico deve ser obrigatoriamente conduzido por um médico, preferencialmente especialista em neurologia, que avaliará a dosagem individualizada e o perfil de segurança para cada paciente.

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Perguntas frequentes

Qualquer tipo de epilepsia pode ser tratada com CBD?

O CBD substitui os outros remédios de epilepsia?

Raramente. Na maioria dos estudos clínicos bem-sucedidos, o CBD foi utilizado como uma terapia 'add-on', ou seja, adicionado aos medicamentos que o paciente já utilizava. A decisão de reduzir ou retirar outras medicações deve ser estritamente médica, pois o CBD pode interagir quimicamente com outros fármacos, alterando sua concentração no sangue e sua eficácia.

Fontes e referências

  1. Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome (NEJM)
  2. Effect of Cannabidiol on Drop Seizures in the Lennox-Gastaut Syndrome (NEJM)
  3. Lei nº 11.343/2006 - Lei de Drogas
  4. Anvisa - Produtos de Cannabis

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