Mitos
Cannabis e Gravidez: É seguro usar CBD ou THC na gestação?
Não existe evidência de que o uso de Cannabis, seja medicinal ou recreativo, seja seguro durante a gestação ou amamentação. Estudos indicam que o THC e o CBD atravessam a placenta e são excretados no leite materno, podendo interferir no sistema endocanabinoide fetal, essencial para o desenvolvimento cerebral. Riscos incluem baixo peso ao nascer e prejuízos cognitivos futuros. Órgãos como a Anvisa e o CFM não recomendam o uso nesses períodos.
A disseminação do uso medicinal da Cannabis trouxe consigo o mito de que, por ser uma substância de origem natural, seu consumo seria inofensivo para gestantes, especialmente no tratamento de hiperêmese gravídica (enjoos severos). No entanto, a complexidade farmacológica dos fitocanabinoides exige cautela extrema. Diferente de medicamentos com perfil de segurança estabelecido para o período perinatal, os componentes da planta interagem diretamente com o sistema endocanabinoide do feto, que começa a ser formado logo nas primeiras semanas de gestação e desempenha um papel crucial na migração e diferenciação neuronal.
O mito da “planta inofensiva” na gestação e os enjoos
Muitas pacientes buscam alternativas naturais para evitar fármacos sintéticos durante a gravidez. Contudo, o termo “natural” não é sinônimo de segurança fetal. O uso de Cannabis para mitigar náuseas e vômitos é desaconselhado pelas principais associações de obstetrícia do mundo, como o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). A ciência demonstra que a exposição pré-natal à Cannabis (PCE) está associada a desfechos neonatais adversos. Segundo dados compilados em literatura revisada por pares no PubMed, o uso materno correlaciona-se com um aumento na probabilidade de baixo peso ao nascer e necessidade de internação em UTIs neonatais. A ideia de que o CBD isolado seria uma alternativa segura também carece de comprovação clínica robusta em humanos para esta população específica.
Como os canabinoides afetam o desenvolvimento do feto?
O sistema endocanabinoide (SEC) humano, composto por receptores CB1 e CB2 e ligantes endógenos, é um dos primeiros sistemas sinalizadores a aparecer no embrião. O THC (tetra-hidrocanabinol) é altamente lipofílico e atravessa a barreira placentária com facilidade, ligando-se aos receptores CB1 no cérebro em desenvolvimento do feto. Essa interferência pode “sequestrar” a sinalização natural que orienta o crescimento dos neurônios. Estudos longitudinais indicam que crianças expostas à Cannabis no útero podem apresentar dificuldades posteriores em funções executivas, como atenção, memória de curto prazo e controle de impulsos. O impacto não é necessariamente uma malformação física visível ao nascimento, mas sim uma alteração funcional na arquitetura cerebral.
O CBD e o THC podem ser transmitidos pelo leite materno?
Sim. Canabinoides são substâncias que se acumulam em tecidos gordurosos. Como o leite materno possui alto teor lipídico, ele se torna um veículo eficiente para a transferência de THC e CBD para o lactante. Pesquisas indicam que o THC pode ser detectado no leite materno por até seis semanas após o último consumo. Embora a quantidade absorvida pelo bebê seja menor do que a via placentária, a exposição contínua durante uma fase crítica de desenvolvimento do sistema nervoso central apresenta riscos teóricos de letargia, atraso no desenvolvimento motor e alterações no padrão de sono do bebê. Portanto, a orientação de abstinência se estende por todo o período de lactação.
Qual é o posicionamento das autoridades de saúde no Brasil?
No Brasil, a regulação da Anvisa sobre produtos de Cannabis, como a RDC 327/2019, estabelece que a prescrição é de responsabilidade médica e deve ser restrita a casos onde outras alternativas terapêuticas foram esgotadas. Em suas orientações e bulas aprovadas, a agência geralmente inclui advertências contra o uso por mulheres grávidas ou que estejam amamentando, devido à ausência de estudos de segurança. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também mantém uma postura restritiva, enfatizando que o uso compassivo ou terapêutico deve considerar o binômio mãe-filho. Juridicamente, a Lei 11.343/2006 não tipifica o uso, mas a exposição de menores a substâncias sem segurança comprovada pode suscitar questões de proteção à infância.
Existem exceções para o uso medicinal?
A medicina baseada em evidências trabalha com a análise de risco-benefício. Em situações raríssimas e extremas, como gestantes com epilepsia refratária grave cujas crises coloquem em risco imediato a vida da mãe e do feto, um médico especialista pode considerar a manutenção do tratamento com canabinoides se os riscos das convulsões superarem os riscos da exposição à substância. Nesses casos, o acompanhamento deve ser multidisciplinar, com consentimento informado detalhado e monitoramento rigoroso do crescimento fetal via ultrassonografia Doppler e outros exames de vigilância do bem-estar fetal.
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Perguntas frequentes
O CBD isolado é seguro para grávidas?
Não há evidências de segurança. Embora o CBD não seja psicoativo como o THC, ele interage com o sistema endocanabinoide e pode afetar processos fisiológicos do desenvolvimento embrionário. A falta de ensaios clínicos em gestantes faz com que o uso não seja recomendado por autoridades de saúde.
Se eu usei Cannabis antes de saber que estava grávida, o que devo fazer?
A interrupção imediata é a conduta recomendada. É essencial relatar o uso ao obstetra durante o pré-natal para que o monitoramento do crescimento fetal seja reforçado. Na maioria dos casos de uso pontual no início da gestação, os riscos são minimizados com a cessação imediata.
O uso de Cannabis causa malformação física no bebê?
Estudos não apontam a Cannabis como um teratógeno clássico (que causa malformações físicas estruturais como membros ou órgãos). O maior risco identificado pela ciência reside no neurodesenvolvimento, afetando como o cérebro se organiza e funciona, o que pode resultar em problemas cognitivos e comportamentais na infância.